agosto 09, 2008

"Presta atenção nas pausas, as pequenas,

que inesperadamente o destino te concede.

Um dia, "o-que-virá" surgirá assim."

(Friedrich Doldinger)

agosto 08, 2008

Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender.
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(Excerto extraído do Fragmento 152, do Livro do Desassossego, cuja autoria foi atribuída por Fernando Pessoa ao seu semi-heterônimo Bernardo Soares)

julho 06, 2008

E aprendi que se depende sempre
De tanta muita diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas
É tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente
Onde quer que a gente vá
É tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho
Por mais que se pense estar.


(Excerto da música "Caminhos do Coração", composta por Gonzaguinha)

julho 05, 2008

Felicidade (?)

Não raro sou surpreendido por aqueles (sobretudo aquelas) a indagarem a si mesmo (e ao mundo) acerca da felicidade. Uma busca... uma necessidade... obcessão, talvez. Seria ilusão? Não alcanço o conceito, a origem e o fim... De tão abstrata, me escapa pelos dedos o entendimento dessa ficção constantemente reinventada para conferir algum sentido à insensatez da vida (se vivida... ou mesmo que não seja). Uma metáfora, por certo. Mas, há os que nela acreditam e a ela se dedicam como único meio de salvação (im)possível. Um ente quase divino a imiscuir-se entre os pagãos e mortais, seres dementes e carentes e imperfeitos enquanto temporariamente realizados nessa transitoriedade terrena onde nada, de fato, é. Não me oponho à felicidade ou aos que se dizem felizes... É que não acredito na plenitude desse "clima da alma". Parece mais viável cogitar instantes agraciados por sua presença etérea, as inumeráveis possibilidades do ser, do estar e do sentir.

julho 04, 2008

Tanto de tanta coisa...

Trago em mim um tanto de emoções e razões e dúvidas e queixas
um tanto tamanho que quase me toma conta
que me abraça e anseia conter até o que não tenho
até mesmo o que desejo e finjo esquecer

É um tanto tamanho que me angustia e até faz ter orgulho de mim
um tanto de tolices, bobagens, meias-verdades
um tanto de remorso, outro tanto de inquietudes

e esse fardo um tanto denso a me pesar sobre os ombros

Esse tanto de cansaço está além de mim
Quero tanto tanto...
acordar desse esconde-esconde sem fim que ultrapassa minhas vontades
despertar num instante adiante (um tanto melhor, por certo)

Haveria um tanto menos de dor?
Um tanto mais de alegrias e preocupações menores?

Um tanto da tão cobiçada e querida e defendida e perseguida (e abstrata) felicidade?
Um pouco de tanto, um tanto de tudo... ou nem tanto?

junho 21, 2008

Fuga

"De repente você resolve: fugir.
Não sabe para onde nem como nem por quê

(no fundo você sabe a razão de fugir; nasce com a gente).

É preciso fugir.
Sem dinheiro sem roupa sem destino.
Esta noite mesmo.

Quando os outros estiverem dormindo.
Ir a pé, de pés nus.
Calçar botina era acordar os gritos
que dormem na textura do soalho.

Levar pão e rosca para o dia.
Comida sobra em árvores infinitas,

do outro lado do projeto:
um verdor eterno, frutescente (deve ser).
Tem à beira da estrada, numa venda.
O dono viu passar muitos meninos
que tinham necessidade de fugir
e compreende.
Toda estrada:

uma venda para a fuga.

Fugir rumo da fuga
que não se sabe onde acaba
mas começa em você, ponta dos dedos.
Cabe pouco em duas algibeiras
e você não tem mais do que duas.
Canivete, lenço, figurinhas
de que não vai se separar
(custou tanto a juntar).
As mãos devem ser livres
para pessoas, trabalhos, onças
que virão.

Fugir agora ou nunca.
Vão chorar, vão esquecer você?
ou vão lembrar-se?
(lembrar é que é preciso,
compensa toda fuga)
ou vão amaldiçoá-lo, pais da bíblia?

Você não vai saber.
Você não volta nunca.
(essa palavra nunca, deliciosa)
Se irão sofrer, tanto melhor.
Você não volta nunca nunca nunca.

E será esta noite,
meia-noite em ponto.
Você dormindo à meia noite."


(Carlos Drummond de Andrade)

junho 12, 2008

"(...) tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo
quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo,
não sei me entregar à desorientação."

(Clarice Lispector)



Por dentro...

Não mais consigo negar essa agonia que me consome
e faz a vida parecer um fardo
a me pesar sobre os ombros.
Ressinto uma solidão de mim mesmo...
por dentro.
A inquietante lembrança dos momentos que sonhei
e findaram irrealizados.
Uma tristeza tão pungente
- e tão minha -
que sufoca...
E choro,
lacrimejando os atropelos
que teimo em repetir.
Sinto saudade de tudo...
sinto saudade de mim.