junho 18, 2012

Carta de silêncio

Vou lhe falar de mim, das vontades, dos medos... Não sei se faço por você, ou por mim, ou por algum outro motivo qualquer que há dias me cobra explicações. Pergunto-me sobre o quanto me tornei alheio de tudo, indiferente... estéril. É cômodo se refugiar à sombra do medo, mas também muito difícil se livrar de suas garras. Por vezes, me visitam lembranças do tanto que já pedi, procurei... desesperado por não encontrar, angustiado por não saber ao certo o que esperar, pelo que buscar. Receio que por tantos caminhos eu tenha perdido o que realmente quis fazer da vida. De fato, não era isso... (ou talvez até seja, mas diferente). Os anos me trouxeram uma certa leveza que me permite ironizar minhas inseguranças, brincando com tudo aquilo que antes me atormentava. Desvio de julgamentos (mesmo dos meus), interpretando o roteiro que criei para o meu uso. Não sou um personagem (deixo claro!). É que não sei ser outro... preso às minhas bobagens, meus escudos, meu orgulho ferido, insisto em ressentir histórias que não vivi, paixões não correspondidas... pelo o que supliquei e me foi negado. Sinto muito... choro em silêncio como quem recorre a uma prece, resignado em não culpar ninguém (nem a mim). Seguem os dias... e o tempo me apavora. Onde estará você? Não sei... e não quero dizer mais nada.

abril 30, 2012


"Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assenta e com mais força quando a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos…
Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você. Eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?
Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu.
Mas se você tivesse ficado, teria sido diferente?
Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.

Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina.

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo.
Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis.
...E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim — para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura."

(Caio Fernando Abreu)

abril 22, 2012

março 26, 2012

"Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sonho alheio.

É frequente eu encontrar coisas escritas por mim quando ainda muito jovem - trechos dos dezessete anos, trechos dos vinte anos. E alguns têm um poder de expressão que me não lembro de poder ter tido nessa altura da vida. Há em certas frases, em vários períodos, de coisas escritas a poucos passos da minha adolescência, que me parecem produto de tal qual sou agora, educado por anos e por coisas. Reconheço que sou o mesmo que era. E, tendo sentido que estou hoje num progresso grande do que fui, pergunto onde está o progresso se então era o mesmo que hoje sou."


(Excerto do fragmento 213, do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa)

outubro 19, 2011

"Me poupe do trabalho de adivinhar seus pensamentos. Diga que me quer apenas quando for verdade. Eu não vou te pedir nada. Não vou te cobrar aquilo que você não pode me dar. Mas, quando estiver comigo, seja todo você. Corpo e alma. Por favor, não me apareça pela metade."

(Caio Fernando Abreu)

julho 30, 2011




"O português correto diz: 'Eu sou'. Sujeito singular, verbo no singular. Mas quem aprendeu de Sócrates, quem conhece a si mesmo, sabe que a alma diz: 'Eu somos'. E diz bem. Pergunto-me: Qual dos muitos eus eu sou?"

(Rubem Alves)