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junho 18, 2012

Carta de silêncio

Vou lhe falar de mim, das vontades, dos medos... Não sei se faço por você, ou por mim, ou por algum outro motivo qualquer que há dias me cobra explicações. Pergunto-me sobre o quanto me tornei alheio de tudo, indiferente... estéril. É cômodo se refugiar à sombra do medo, mas também muito difícil se livrar de suas garras. Por vezes, me visitam lembranças do tanto que já pedi, procurei... desesperado por não encontrar, angustiado por não saber ao certo o que esperar, pelo que buscar. Receio que por tantos caminhos eu tenha perdido o que realmente quis fazer da vida. De fato, não era isso... (ou talvez até seja, mas diferente). Os anos me trouxeram uma certa leveza que me permite ironizar minhas inseguranças, brincando com tudo aquilo que antes me atormentava. Desvio de julgamentos (mesmo dos meus), interpretando o roteiro que criei para o meu uso. Não sou um personagem (deixo claro!). É que não sei ser outro... preso às minhas bobagens, meus escudos, meu orgulho ferido, insisto em ressentir histórias que não vivi, paixões não correspondidas... pelo o que supliquei e me foi negado. Sinto muito... choro em silêncio como quem recorre a uma prece, resignado em não culpar ninguém (nem a mim). Seguem os dias... e o tempo me apavora. Onde estará você? Não sei... e não quero dizer mais nada.

setembro 29, 2010

Despedida


Ao saber de sua partida, meu mundo pareceu parar por alguns segundos. Um turbilhão de sentimentos confusos... vagos... de perda. Não que houvesse qualquer promessa. Não que esperasse o resgate do que passou. Não que sentisse mais do que antes. Seria, por certo, um lamento a se ressentir por tudo o que poderia ter sido e não foi.

"(...) tem gente que chega prá ficar
tem gente que vai pra nunca mais
tem gente que vem e quer voltar
tem gente que vai e quer ficar
tem gente que veio só olhar
tem gente a sorrir e a chorar
e assim chegar e partir
são só dois lados da mesma viagem
o trem que chega é o mesmo trem da partida
a hora do encontro é também de despedida
a plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar
é a vida desse meu lugar
é a vida." (*)

(*) Excerto da música "Encontros e Despedidas", do Milton Nascimento.

janeiro 15, 2010

Melancolia


Há dias em que melhor seria não acordar
não lembrar de tudo que ainda dói
esquecer os caminhos
silenciar palavras

Há dias em que melhor seria não sentir
e se manter indiferente ao que é alheio de nós
tapar os ouvidos
conter as lágrimas do arrependimento

Há dias em que melhor seria não acreditar
duvidar até mesmo do que parece ser manifesto
falsear olhares, sorrisos...
vagas promessas

Há dias em que a vida se cansa de tentar
Há dias em que a verdade prefere se esconder
Há dias em que a angústia sufoca
Há dias em que a saudade é maior
Há dias em que chorar não adianta
Há dias em que me perco e não me quero encontrar

janeiro 08, 2010

Despertar


A passagem das horas a reverberar palavras
fragmentos de lembranças
do olhar... do sorriso... do arrepio ao primeiro toque
a ansiedade da espera...
a sensação vívida dos momentos...
uma saudade antecipada do que não chegou a ser

Alguns poucos e breves e raros
dias de encantamento
fizeram a vida perceber que pode ser doce
e leve como um sonho do qual despertei

Fica a alegria, o cheiro, a melodia
a verdade das confissões
a incerteza dos porquês
a sensatez das respostas

Guardo tudo que nos permitimos
Guardo muito do pouco que nos aproxima
Guardo pouco do muito que nos afasta
(... e basta)

dezembro 29, 2009


Entre pensar e sentir
o jogo cansativo de advinhações
do que está implícito nas palavras (mal)ditas
na releitura dos olhares
pequenas pausas
despertar de suspeitas
... essa inquietude.

Vagas promessas das noites que virão
emoções reinventadas
sentimentos arredios
tentativas vãs
... nostalgia que se antecipa ao pôr-do-sol.

dezembro 19, 2009

Novo amanhecer


Tanto a dizer (e agradecer)
que até faltou tempo para perceber
que aquele dia tão esperado
- antes tão distante que mal conseguia ver -
está agora diante de mim
e eu, aqui, sem saber o que será de mim
neste novo amanhecer.

Ficou mais fácil abrir os olhos
e ver tudo que sonhei acontecer
assim...
sem pensar, sem controlar, sem qualquer direção dar
entrar no meu trem da história e partir
partir para viver,
partir sem escolher entre envelhecer ou morrer.

Só quero viver...
assim tão fácil: viver, viver e viver
pra não caber mais em mim aquele ser morto que me impedia de ser
deixar para trás tudo o que passou
até restar apenas uma vaga lembrança esquecida e para sempre superada.

Chega mais perto de mim você que chegou na minha melhor hora
mais perto, mais perto, mais perto...

terá a certeza do meu sentir e da minha verdade
perceberá sem esforço que estive me preparando para receber você.

outubro 24, 2009

Confissão


Dias em que tudo parece tão quieto
dentro de mim um amontoado de dispersões
me sopram aos ouvidos a certeza dessa ilusória mansidão
dos ponteiros que marcam o compasso das horas.

Aquele resgate do tanto que tenho vivido
a pena do que não vivi e foi deixado pra trás
as muitas alegrias (ou tristezas) que virão
dos encontros, dos desencontros
das chegadas e muitas partidas.

O pulsar do desejo latente que cá está
instalado em meio a tantas outras necessidades
do afago que precisa ser compartilhado
da conversa silenciosa dos olhos que buscam cumplicidade.

O encanto das sentimentalidades que trazemos dentro de nós
o corar de ser pego rascunhando cartas
que jamais chegarão ao destino
e para sempre pemanecerão escritas no breve espaço de tempo
em que pude sentir de perto a verdade escondida naquele olhar.

As tentativas que se deixam frustrar por medo
o receio de perder o que nunca tive
pelo que ainda gostaria de dizer sem a censura do julgamento alheio
nem o fingimento de reescrever emoções
... um coração que já não sente dores
mas pulsa em silêncio o seu amor.

agosto 14, 2009

Aniversário


Hoje, dia do meu aniversário, senti certa necessidade (ou obrigação) de deixar aqui um registro da data. Mas, confesso que não estou no clima da comemoração que os costumes impõem. Talvez, se conseguisse um canto para meu refúgio, me sentiria melhor em permanecer recluso até que os ponteiros anunciassem a virada do dia. Isolado de todos, teria algum tempo para escutar todas as inquietações para as quais tenho tapado os olhos. Distante de tudo, não me seria exigido o esforço de esboçar sorrisos, nem falsear uma alegria que há muito não trago em mim. Se atentos às minhas pausas, meus silêncios revelam bem mais...

"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos."

(Excerto do fragmento 196, do Livro do Desassossego, cuja autoria foi atribuída por Fernando Pessoa ao seu heterônimo Bernardo Soares)

julho 21, 2009

Toquinho - Aquarela

Não recordo de já ter me sentido envolvido por essa melancolia que, hoje, se precipitou em mim e tomou conta do meu dia inteiro. É algo, assim, tão breve e intenso. Um soluço, uma vontade, uma lágrima, um nó... Incertezas, medos, dúvidas... Um pouco de tudo junto num sentimento só. Sei apenas que, em flashes de nostalgia, recordei a criança que fui. Uma imensa saudade da minha infância!
Lembrei também dessa música do Toquinho. Tão inspiradora! Uma perfeita expressão da vida em si mesma, com suas alegrias e tristezas, descobertas, realizações e decepções, a inocência pueril, o amadurecimento, despedidas, os desafios do inédito, a finitude do ser. Enfim... uma aquarela que é a vida com suas infinitas possibilidades e que, a nós, (in)felizmente, não é dado retocar.

julho 11, 2009

Para o meu lado

Você que está vindo
inesperadamente
de lá pra cá... e pra mim
para o meu lado
este lado que lhe ofereço
e que é inteiro
mesmo talvez parecendo ser parte
a parte de mim que sempre guardei
que agora sinto poder mostrar
compartilhar
sentir meu pensamento voar
certo de encontrar o seu.

É a parte intacta
que trago em mim
há muito escondida
e esquecida na textura dos dias
das horas sem o sabor da vida
que pressinto logo experimentar.

Fugir ou prosseguir?
Recuar ou arriscar?

Recordar ou esquecer?
Empolgo e me acalmo
indago sobre ser ou não
(não sei)
e pouco importa saber...
a alma sorri
a vontade escolhe tentar
e eu digo sim.

julho 06, 2009

Dá licença


Dá licença que vou chorar
reclamar da vida
queixar-me do mundo
dos transeuntes anônimos
das paixões mal entendidas
do desejo sufocado em si mesmo.

Dá licença para a insensatez
da minha fé imperturbável
da sinceridade que grita o que pensa e sente
da minha esperança teimosa
de acreditar em final feliz.

Dá licença para a mediocridade
da minha imaturidade
dos pré-conceitos pueris
das minhas carências, tolices,
medos
da resignação que me estagna.


Dá licença para a extra(e)ordinária inquietude
dos meus sentimentos
das incessantes buscas

da minha alegria triste
da angústia pungente e doída
do pranto que não deixo verter.

Dá licença para o meu silêncio
Dá licença para a minha melancolia
Dá licença para a minha solidão
Dá licença para o meu cansaço
Dá licença para mim.

junho 30, 2009

Caraminholas


Muito do que vi e senti se perdeu

nos dias que se seguiram
na gente que conheci
nas angústias experimentadas
nas tentativas frustradas
no tempo...
em mim mesmo.

Tudo estava ali...
era eu que não estava.
Por mais que buscasse resgatar
as lembranças me escapavam
em lapsos de cansaço

a me antecipar a resposta
de uma pergunta que não fiz.

Cadê aquele menino-homem de caraminholas na cabeça?
Onde está? - indaguei aflito.
Procurei, procurei... não encontrei.
O sentido de tudo é outro.
O menino não quis mais brincar
e se escondeu.

O homem segue a descobrir
caminhos, pessoas, verdades, dores, sabores...
trocando passos com suas certezas e incertezas
suas lutas, sonhos...
No fundo ele também quer ser feliz.


Dizem que o menino ainda pode ser visto...
Por vezes, se esconde no bolso do paletó
outras adormece sem dizer onde está
alguns atentos percebem suas pegadas aqui e ali
há os que juram poderem enxerga-lo sorrindo no olhar do homem.

junho 21, 2009

Um dia para Álvaro de Campos...

Ao acordar, uma antecipação dos sentimentos do dia me vieram à cabeça. A razão não sei, nem busco. Justificativas quase nunca importam tanto quanto os porquês dos olhos interrogativos. Minha inspiração voa longe à procura de novos ares, cores, às vezes ondas, noutras precisa mais de uma brisa leve, lírios, nuvens, cheiro de alecrim. Seu pouso é incerto e minh'alma mais ainda. Nessas horas esquecidas em devaneios lançados a esmo, sinto cada vez mais que "eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água". Por isso mesmo e por tudo mais que esta manhã me desperta, hoje é dia para Álvaro de Campos.

"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(...)

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas.

(...)

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

(...)

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

(...)

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim."



(Excertos do poema "Passagem das Horas", cuja autoria foi atribuída por Fernando Pessoa ao seu heterônimo Álvaro de Campos)

maio 18, 2009

Sem resposta


Sem avançar ou recuar

nem chegar ou partir
sobrevive-se num enredo de buscas inúteis
de sorrisos forçados
e falsas intenções
das meras projeções na tela do nada que nunca chegou a ser
de tudo que se pode pintar com as cores da imaginação
falácias, conjecturas, ilusões.
Por que sustentar esperanças reinventadas?
Reproduzir mesmos caminhos trocando cenários
arriscar uma dor que já cessou
fantasiar expectativas que feneceram de sede
esquecer tantas perguntas que não tiveram resposta.
Vontade (ou necessidade) de espiar o porvir
deixa-lo se aproximar e afugentar o passado de lembranças vazias.
Nunca gostei de folhas em branco
que sutilmente desafiam e imploram novas composições
de tantas palavras exacerbadas de sentidos
nem sempre fiéis ao sentimento que pretenciosamente ousam expressar.
Ah, quem me dera acolher nos braços a certeza eloqüente que dissesse sim ao meu desejo
esse que pulsa e é tão maior do que aparenta ser...
Como faço para acreditar ser nada se sinto tão intenso cá comigo?

maio 13, 2009

Enfrentamento


Palavras impensadas proferidas quase sempre sem sentido
buscando explicações para não escandalizar o preconceito travestido de moralidade.
Ah, como tenho revisto as minhas convicções de outrora...
como tenho questionado em mim o que antes apontava friamente com minha intransigência imatura.
A vida é vasta e o ser humano por demais complexo
para se curvar aos contrapontos impostos pela tendência tola de racionalizar o que não pode ser racionalizado.
Certo ou errado, verdadeiro ou falso, moral ou imoral, normal ou anormal...
Quem pode dizer?
Quem será o primeiro a atirar a pedra da hipocrisia?
De que valem os sacrossantos padrões?

Cá comigo mesmo, eu sei e não preciso dizer a ninguém...
Cada um que descubra a sua própria verdade
ou viva a sua própria mentira.
Mesmo a mentira não pode ser julgada
não está fadada a ser criticada pela opinião mesquinha dos que fingem ser o que não são.
Ah, o pensamento... Quem pode controla-lo?
Que seria de nós se cada pensamento impuro nos condenasse ao purgatório?
Sou patético quando tento entender o todo. E como ousar tamanha pretensão se sou parte?
Minhas fragilidades, minhas limitações, meus medos, meus pecados...
Não pedirei a ninguém absolvição.
Não quero permissão.
Eis a minha revolução!

abril 30, 2009

Interrogações

Breve e inútil me parece a vã (e quase impossível) empreitada de tentar definir a si mesmo. Tanto quanto rotular sentimentos... Que infeliz mania é essa que nos faz querer nomear tudo? Possivelmente por nos transmitir a ilusão de controle que, invariavelmente, nos toma dos pés à cabeça. Uma tolice, por certo. Uma dentre tantas bobagens que o dia-a-dia nos presenteia quando incautos de nós mesmos. Tantas são as situações em que não sei nada de mim e, muito mais que um simples entendimento, persigo um sentido maior que justifique (ou amenize) as minhas interrogações. Uma boa conversa, um ombro amigo, um choro incontido são eficazes, mas o confronto consigo mesmo é inadiável e hora chega em que já não pode mais se refugiar à sombra das projeções de uma vida pintada a retoques de sorrisos e fantasias de faz-de-conta. Os esforços são sim reconhecidos pelo olhar alheio, mas logo o brilho é esmaecido ante à incredulidade de nossos próprios olhos que repudiam a venda da alma à prestações. Quem paga o preço do aprisionamento voluntário e silencioso que vamos erguendo tijolo a tijolo? Presos às definições, perdemos as delícias do inesperado tentando adivinhar o sabor do que evitamos experimentar. Posso acreditar nos contos de ninar ou apenas fixa-los à parede como lembranças de momentos que tiveram sua importância e findaram inermes. Tanto quanto a morte que nos é derradeira, é certo que tudo acaba. Impotentes, tendemos a expender energias tentando brecar os ponteiros do tempo que é alheio de nós. Não exijo mais de mim a ilação do meu discurso que - não raro - soa insensato. Deixo assim: inconclusivo.

abril 19, 2009

Não posso mais...

Não posso mais
chorar de arrependimento

por atitudes que não tomei
por omissões imaturas
por titubear ante às minhas vontades
por sucumbir à sombra do medo
por tentar em vão afastar de mim
o que não posso alterar.

Não posso mais
chorar pelo que poderia ter sido
(e que nunca saberei)
lastimar o afeto que não tive
pesar as chances que não me foram dadas
nem maldizer quem melhor aproveitou
oportunidades que outrora tive nas mãos.


Não posso mais
chorar dores passadas

remoer o que excedi em dizer
lamentar o que silenciei
segurar em mim esse bem querer
que quero e preciso esquecer
fazer dele fortaleza e abrigo
para resgata-lo
um dia
sem hesitar.

abril 08, 2009

Teimo em não dar ouvidos aos meus sentimentos
e não raro minhas atitudes denunciam minhas intenções
contradizendo o aparente equilíbrio urdido como disfarce da verdade.
Tantos são os olhares atentos a tudo
uma permanente vigília
para evitar as fugas, os retrocessos
e não deixar reviver o que precisa ser esquecido.

Uma imagem apenas...
foi bastante para ameaçar tantas certezas.
Percebo o espelho refletir angústias antigas
tudo o que poderia ter sido e não foi
e todas as possíveis razões provam que sempre estive errado
e que por muito tempo não quis enxergar.
Esse entendimento é derradeiro e definitivo...
Hora de desmontar o picadeiro.

abril 03, 2009

"O eco do meu oco"

Tudo em mim parece reverberar o que outrora trazia em sepulcro
um quase ser e sentir sobre tudo que
- de tão indefinido e irrealizado -
mais aumenta esse abismo de queixas
ecoando o imenso vazio das vivências não vividas
das experiências não experimentadas
do alívio imediato de dores necessárias
das constantes negações travestidas de salvação.

Dias e noites alheio aos arroubos da juventude
mantendo a seriedade e a aparente auto-suficiência
do personagem que criei para o meu uso.
Interpreta-lo sempre foi o meu drama predileto.
E eis, um dia, que entreolhando além da cortina
me vi sem platéia, sem foco, sem luz... sem voz.
O que resta de uma encenação sem aplauso?
"A quem respondo quando o eco do meu oco responde?"

A resposta não sai, fica presa
retida entre tantos poréns e vírgulas e dúvidas e este não-sei-bem-o-quê
"retida na retidão de pensar que todo fim tem de ter um ponto."
As convicções de ontem são as incertezas de hoje
quebrando linhas, pulando pausas, cortando curvas
"onde foram parar as minhas reticências?"
Seria "o oco de outro ninho" ?
Seria "o eco da minha própria voz pedindo amor e carinho" ?

Um ressentimento que sangra
a vitória da covardia que impede de arriscar
que não abdica da comodidade
que finge estar tudo bem
que acredita ser feliz
que tudo ameniza e esquece
... até de viver.

março 13, 2009

Quis compor versos, mas a inspiração parece me escapar por entre os dedos. Talvez seja mais fácil desabafar em prosa ou, quem sabe, porque eu esteja meio oco. Um vazio imenso que me consome, que me atormenta, que me impulsiona a buscar a esmo como um andarilho errante, sem pouso certo, agonizando uma espera que não sabe onde e quando termina. Olho as pessoas ao redor e nada me prende. Trago em mim uma impaciência que me angustia e, mesmo esquecida, fere o meu coração. A alma - de tão apertada - sufoca. Acho que nem gritar consigo, mas de nada adiantaria. Também não quero gastar a boa vontade alheia com as minhas lamentações. É algo tão meu, tão doído, tão estupidamente absurdo... que até me canso de mim. E choro e me desespero e me desiludo e sofro e espero e me ponho a escrever.
Mergulhado no desassossego* do Pessoa e entorpecido pela doce melodia das ilhas dos açores**, me dou colo...
.
"Nessas horas lentas e vazias, sobe-me à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar."
.
"É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus. Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões."
.
"Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objecto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém."
.
(*) Livro do Desassossego, excertos dos fragmentos 3 e 63.
(**) As ilhas dos açores, Madredeus.